domingo, 2 de agosto de 2026

Maria João Pardal & Ezequiel Marinho (2007) – A Comenda Secreta

Capítulo 1 (página 11) - Quase quinze anos! Quinze anos! – Pensava Afonso VII de Castela. – A minha família é a minha desgraça… ainda por cima o Arcebispo de Braga é o Primaz das Espanhas!... Decorria o ano 1157. D. Afonso VII, filho de Afonso VI e primo d’El-Rei D. Afonso Henriques, naquele dia estava de mau humor. Depois das batalhas de Cerneja e Arcos de Vldevez, Guido de Vico, legado do papa, tinha convocado uma reunião tripartida no dia 5 de outubro de 1143, em Zamora. Afonso VII fora obrigado a aceitar a independência do Condado Portucalense. O seu primo Afonso arvorara-se de censual e estragara-lhe os sonhos de um império maior. - O papa ainda não lhe respondeu a reconhecê-lo!...talvez ainda seja possível tramar algo!... – pensava, enquanto a sua mão, pejada de anéis, agarrava, de forma rude um cálice de vinho, O inverno em Sanabria cobria tudo de branco. Desde Tui a Puelba de Sanabria os irmãos Trava tinham percorrido, numa semana, algumas léguas. Iriam encontra-se com o imperador de Leão e Castela na barbacã de Sanabria, junto ao rio e sobre uma ligeira colina, que tinha por detrás a serra da Culebra, coberta de branco. (…) Capítulo 6 (páginas 44-45) (…) Os dois homens cumprimentaram-se. Agarraram simultaneamente os pulsos com as mãos direitas e apertaram-se, fazendo cada um pressão nas costas do outro, com as mãos esquerdas. - Já passaram seis anos desde a ultima vez que nos encontramos, e quis o destino voltar a levar-nos a Al-Cobaxa – disse Mestre Abraão a Gualdim Pais. - É verdade, meu velho amigo…meu irmão! Abraão tinha um aspeto altivo, de quem preferia partir a vergar. Tinha trabalhado na construção de um mosteiro provisório no campo de Chaqueda, com a criação de uma abadia para cerca de quarenta monges, e estivera na fundação do Mosteiro de Santa Maria, seis anos antes, quando o rei, para comemorar a vitória aos mouros na conquista da cidade de Xantarim, cumpriu a promessa que fizera de oferecer um grande mosteiro aos Cistercienses. Em 1153, D. Afonso Henriques fez doação a São Bernardo de Claraval, que viria a falecer nesse mesmo ano, do couto para a construção do mosteiro. A sua arte e mestria levaram-no, tantas e tantas vezes, a partilhar com religiosos de outras crenças esta alegria, que era ver a obra divina nascer das suas mãos, calejadas e imperfeitas, e das de tantos outros irmãos que com ele colaboravam. Para Abraão e Gualdim o trabalho, qualquer que ele fosse, era a exaltação da sabedoria. E a sabedoria divina estava com Deus, que agia como um arquiteto. - Está tudo pronto? – perguntou Gualdim, em voz alta. Um uníssono «sim» ecoou pela natureza envolvente. Estavam todos de acordo. - Então vamos…partamos sem demora e que Deus seja o nosso guia! O cortejo começou a descer em direção aos campos da várzea, saindo pelo lado poente. Abel e Renato conversavam, com os cavalos quase colados. - Como é que o teu tio está aqui? Como é que vocês vieram aqui parar? – perguntou Renato, surpreendido. - Tu queres saber a minha história, ou a história do meu povo? - Acho que tens tempo suficiente para falar, Abel! Temos uma longa caminhada pela frente, não te parece? - Bom, o meu povo veio para a Península no tempo de Salomão. Sabias que o apóstolo Paulo queria vir para a Ibéria converter a comunidade judaica? - Não, não fazia a menor ideia. - Olha Renato, Ibéria, Ibrya, Hebreia, Ibrim soa-te a quê? - Hebreus? – disse Renato, a medo. - Exato. A Península Hebreia era o nome que os navegantes fenícios davam à Ibéria dos Romanos. - Estou a ver! E o teu tio… o que faz o teu tio, a propósito? E tu. Porque o acompanhas? - Mas tu queres é ouvir falar de mim! O mister da minha família é o corte da pedra. O senhor D. Gualdim conheceu o meu tio na Terra Santa, em Jerusalém, vivia num bairro cristão. Encontravam-se lá já há alguns anos com o intuito de aprofundar os seus conhecimentos da Torah. Depois acompanhou-o ao Egipto e a Antioquia em algumas missões. Sabes que normalmente somos nós, os judeus, que pagamos aos trabalhadores, mas também podemos trabalhar a pedra. Esta arte requer saber. Depois, regressou com ele da Terra Santa e ajudou-o na construção do Castelo do Pombal. A ultima vez que se viram parece que foi em Al-Cobaxa. O meu tio esteve lá durante as obras do mosteiro. Já conhece o Senhor D. Gualdim há muitos alnos! - Então a estrela de seis pontas que estava na tua porta, em Lixbuna, foi o teu tio que a esculpiu? - Foi. Nós, os judeus, assinalamos sempre as nossas portas. E tu, porque vens? (…) Maria João Pardal & Ezequiel Marinho (2007) – A Comenda Secreta (versão portuguesa), Coleção enigmas da história.

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